Teatro
Refletindo sobre o racismo estrutural a partir da história de uma família marcada pela desigualdade, A filha da terra e o filho do dono leva para a cena uma filha negra excluída da herança e um filho branco reconhecido como legítimo, e problematiza a permanência de ideias e práticas discriminatórias que atravessam a história brasileira. Metaforicamente chama a atenção para como o Brasil repartiu a terra e criou desigualdades sentidas até hoje. Contudo, mais do que revisitar o passado, o espetáculo convida o público a pensar como essas formas de exclusão continuam presentes na sociedade e a fortalecer o compromisso com a luta antirracista.
Fiel à trajetória da UTA Teatro, a montagem articula rigor investigativo e liberdade criativa. O espetáculo resulta de um processo autoral desenvolvido ao longo de vários meses, no qual a pesquisa artística antecede a escrita dramatúrgica. A proposta reafirma o teatro como espaço de encontro, reflexão e transformação social, propondo um diálogo com diferentes públicos sobre memória, justiça e igualdade. “O mais difícil e o mais emocionante pra mim nesse processo, tem sido descobrir como apresentar as dores e as alegrias humanas de um sul do Brasil imaginário e ao mesmo tempo conectado com nossas lembranças. Trata-se de um percurso de reconhecimento das especificidades da branquitude e de como ela nos constitui como povo”, afirma o ator Gilberto Icle.
Um trio de artistas - Celina Alcântara, Gilberto Icle e Nina Fola - toma a cena para contar a história de um velho homem branco, um estancieiro que vive no sul do mundo e tem dúvida de para quem deixará suas riquezas. De um lado, o filho branco preguiçoso, mas legítimo, e, de outro, a filha negra, fruto de um relacionamento com uma agregada. Ao agir em razão do racismo e da misoginia, deixa tudo ao filho que, por fim, acaba lhe expulsando de casa. Cego e vagando pelo Pampa, reencontra a filha. O espetáculo é livremente inspirado em Barbosa Lessa, Petrúcio Amorim, Simões Lopes Neto e William Shakespeare, bem como nas tradições orais e nas memórias das famílias dos artistas criadores. A história e seus personagens são apresentados e criticados pela figura de um boi das brincadeiras populares, símbolo das charqueadas - atividade econômica de grande relevância para o Rio Grande do Sul durante o período colonial - que funciona como testemunha e comentador crítico, recuperando imagens paradoxais de tristeza, violência, trabalho, resistência e alegria que caracterizam as histórias do sul do Brasil.
Entrada franca, com retirada de senhas 1h antes de cada apresentação
Gratuito